Doutor pela USP, professor de História da UFPB analisa João Pessoa e indaga: “É mesmo a segunda cidade mais verde do mundo?”

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Ângelo Emílio da Silva Pessoa (Departamento de História – UFPB)

 

                Não sei quem concedeu a João Pessoa o tal título de segunda cidade mais verde do mundo, mas se essa personalidade ou organismo desse uma passada em algumas ruas dos bairros de Manaíra, Bessa ou Jardim Luna, pensaria estar numa espécie de Kandahar à beira do Atlântico, tal o grau de desolação de várias áreas de nossa cidade. Para um transeunte ou um usuário de transporte público circular a pé pelas ruas de tais bairros deve ser uma prova de resistência das mais radicais ao grau de insolação e calor de tais ruas. O mormaço é simplesmente insuportável. Se há uma cobertura vegetal significativa no Município, essa não é equilibrada e uniforme, há áreas densamente arborizadas e outras que são verdadeiros desertos de concreto. As providências dos particulares envolvem, quase sempre, a aquisição de aparelhos de ar-condicionado, que apenas retiram o calor de determinados ambientes e o transfere para outros (usualmente o espaço público), com o conseqüente aumento do consumo de energia, com suas conhecidas mazelas agregadas.

                O fato é que as autoridades municipais de outros tempos tiveram o cuidado de elaborar planos de arborização de nossas vias, o que torna um prazer circular por avenidas como a João Machado, Maximinano de Figueiredo, Tabajaras, Coremas, D. Pedro I, Getúlio Vargas, entre outras. Também a arborização de algumas de nossas praças centrais (exceto para o mais recente e deserto de concreto do Ponto de 100 réis) é notável, quando comparamos, por exemplo, a Praça da Independência com a Praça do Caju, no Bessa, praticamente despida de qualquer vegetação apropriada. Cercadas por concreto e asfalto, nossas áreas públicas se tornam progressivamente menos convidativas para a circulação de pessoas.

                Essa situação se relaciona ao fato de a arborização urbana ter deixado, pouco a pouco, de consistir numa política pública sistemática. Tal política incide em questões referentes ao conforto do ambiente urbano e à constatada geração de ilhas de calor, que têm atingido áreas diversas da cidade. A soma de especulação imobiliária, projetos urbanos e viários descompromissados com a arborização, a falta de maiores cuidados públicos e particulares com a vegetação urbana existente, a derrubada de árvores nas calçadas e vias públicas, cria um ambiente cada vez mais inóspito, bem ao contrário do que divulgava até bem recentemente a nossa máquina de propaganda.

                Cada administração municipal recebe desafios e trás novas promessas para a cidade e é sempre momento de suscitar vários debates sobre nossos problemas, entre os quais, nos parece importante sugerir um adequado e sistemático programa de arborização na nossa zona urbana, especialmente nos bairros mais novos.

                Certamente, uma política pública nesse sentido não se limita ao plantio puro e simples de árvores (muito embora esse seja um ponto essencial e mais visível de tal política), mas incide nos cuidados com essa vegetação e a orientação adequada para a introdução de árvores em calçadas ou praças, com a devida educação dos proprietários de imóveis e moradores para seu cuidado e preservação. Há eventuais argumentos sobre problemas de queda de galhos, problemas com fiação ou redes de água e esgotos, raízes que quebram pisos de calçadas, insetos, iluminação e segurança e essas questões exigem que o debate se faça dialogando todos os aspectos e com todos os agentes envolvidos, mas cabe ao poder público – através de um Departamento de Parques e Jardins da Secretaria de Meio Ambiente ou órgão similar – estimular, orientar e dar suporte para melhorar a questão de arborização na nossa cidade.

                Essa política haveria de se coadunar com uma gestão ainda mais consistente de gestão de resíduos sólidos e líquidos em toda a cidade. Inclusive, campanhas pontuais em relação ao descarte de lixo nas praias são urgentes, dada a situação verificada em boa parte de nossa orla litorânea, com os conhecidos prejuízos à fauna marinha. Certamente, tais medidas não se aplicam apenas às praias, mas sua atração no Verão agrava a questão.  

                Residi em Campinas (SP), durante duas décadas, e tive a oportunidade de conhecer uma campanha daquela cidade, que se aproximava de seu milhão de habitantes e a Prefeitura desenvolveu a campanha de um milhão de árvores, o que estimulou muitos moradores à época a obterem doações de mudas do Departamento de Parques e Jardins daquela cidade, recebendo as devidas orientações sobre a compatibilidade da árvore escolhida com o local reservado para o seu plantio etc. Lamentavelmente, após anos, tal política foi abandonada, o que consistiu num inegável retrocesso.

Talvez uma providência importante em João Pessoa pudesse consistir na realização de levantamentos por áreas, com o estudo das espécies adequadas, considerando todos os parâmetros de uso e segurança, convidando os moradores a discutirem coletivamente essa questão. Esse é um papel do poder público e pensar no conforto do ambiente urbano é considerar esse mesmo ambiente num patrimônio coletivo. O contrário, é deixar tudo entregue ao acaso e às liquidações de aparelhos de ar-condicionado, num vale-tudo que contribui para a progressiva degradação do ambiente urbano na nossa cidade que se pretende uma das mais verdes do mundo. É conferir.’

Artigo publicado no WSCom

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