“Cálice” pelo jornalista Rui Leitão

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Ao retornar do seu autoexílio na Itália, em 1973, Chico Buarque de Holanda foi convidado para participar do Festival PHONO73, organizado pela Polygram, com a participação dos mais destacados nomes da Musica Popular Brasileira  (MPB). Em parceria com Gilberto Gil, ele compôs a música “Cálice” onde no seu refrão brinca com as palavras “cálice” e “cale-se”, procurando dessa forma fazer o seu protesto contra a censura ainda vigente no país. No momento em que faziam sua apresentação pública, Chico e Gil tiveram seus microfones desligados, mas mesmo assim, ainda que irritados, a cantaram até o fim, acompanhados pelo público presente. Como era muito comum na época da ditadura militar, os compositores usavam uma linguagem metafórica para propagarem suas mensagens de denúncias contra as arbitrariedades do regime.

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“Pai, afasta de mim esse cálice, Pai/afasta de mim esse cálice/ de vinho tinto de sangue”. Logo no início da música, eles repetem por várias vezes a expressão usada por Jesus no seu calvário no Jardim do Getsêmani, quando rogava a Deus, em oração, que afastasse dele aquele martírio. Era a forma de chamar a atenção para os verdadeiros objetivos do que queriam manifestar na canção. O apelo quase desesperado de ver finalizado o tempo de opressão a que os brasileiros estavam sendo submetidos desde março de 1964. O vinho tinto trazia o gosto de sangue.

“Como beber dessa bebida amarga/tragar a dor, engolir a labuta/mesmo calada, ainda resta o peito/silêncio na cidade não se escuta”. Não dava mais para conviver com aquela situação de forma passiva, sem reação. A dor do sofrimento não podia ser aceita resignadamente. O trabalho do dia-a-dia, a labuta rotineira, teria que ter um sentido mais objetivo de construção de um novo tempo. Ainda que os ditadores continuassem a reprimir qualquer movimento de contestação ao poder, restava “no peito” o amor próprio, a vontade de gritar que era chegada a hora da insurreição contra aquele estado de coisas. Percebia-se que já não havia mais silêncio na cidade, nas ruas, mesmo sem estardalhaços ou alaridos, a voz do povo já se fazia ouvir nas intimidades da convivência social.

“Do que me vale ser filho da santa/melhor seria ser filho da outra/outra realidade menos morta/tanta mentira, tanta força bruta”. Não valia “ser filho da santa”, no sentido de ser um discípulo do bom comportamento, da obediência servil, do cumprimento educado das regras. Era melhor ser “filho da outra”, significando ser rebelde, insubordinado, contrário aos princípios ditados pelos que detinham a força de governo. Era urgente mudar a realidade vivida. A propaganda enganosa tentando vender uma imagem diferente da crueldade que se estabelecia no regime teria que ter um basta. O povo precisava acordar. “A força bruta” não poderia mais impor tanto medo.

“Como é difícil acordar calado/se na calada da noite eu me dano/quero lançar um grito desumano/que é uma maneira de ser escutado”. A passividade diante dos acontecimentos ficava cada vez mais difícil de ser consentida, se era sabido que nos porões da ditadura, “na calada da noite”, muitos dos nossos compatriotas estavam sendo torturados, massacrados, assassinados. O grito da revolta tinha que ser ecoado para a tomada de consciência coletiva de que teríamos que reconquistar nossa liberdade e retomar o caminho da democracia.

“Esse silêncio todo me atordoa/atordoado eu permaneço atento/na arquibancada para a qualquer momento/ver emergir o monstro da lagoa”.O aparente silêncio, de certa forma, deixava espantados, como que perdidos, sem saber o caminho certo a trilhar, todos os que compreendiam a grave situação então vivenciada. Contudo, não se permitiam ficar desatentos, porque “o monstro” continuava ameaçando a qualquer instante “emergir da lagoa”. Os ditadores não recuariam facilmente e poderiam, de uma hora para outra, fazer valer o poder ditatorial que ainda tinham nas mãos, impingindo novas formas de abuso de autoridade e violência para impor as suas ordens.

“De muito gorda a porca já não anda/de muito usada à faca já não corta/como é difícil, pai, abrir a porta/essa palavra presa na garganta”. A ditadura começava a perder forças. Os ventos da liberdade já se insinuavam em nossos ambientes. A crueldade contra os que não compactuavam com os ditadores, de tanto ser praticada, já não amedrontava tanto. No entanto, a dificuldade em romper os grilhões do aprisionamento político ainda torturava a todos. Na garganta uma palavra engasgada: liberdade.

“Esse pileque homérico no mundo/de que adianta ter boa vontade/mesmo calado o peito, resta a cuca/dos bêbados do centro da cidade”. A embriaguez dominava perseguidores e perseguidos. Os primeiros, embriagados pelo poder e os outros sob o efeito entorpecedor da bebida amarga que lhes obrigaram a ingerir. Situações diferentes. Os “bêbados do centro da cidade”, se não podiam falar o que sentiam poderiam usar a “cuca” nos momentos de sobriedade para arquitetar formas de dar essência a atitudes de oposição.

“Talvez o mundo não seja pequeno/nem seja a vida um fato consumado/quero inventar o meu próprio pecado/quero morrer doAo retornar do seu autoexílio na Itália, em 1973, Chico Buarque foi convidado para participar do Festival PHONO73, organizado pela Polygram, com a participação dos mais destacados nomes da MPB. Em parceria com Gilberto Gil, ele compôs a música “Cálice” onde no seu refrão brinca com as palavras “cálice” e “cale-se”, procurando dessa forma fazer o seu protesto contra a censura ainda vigente no país. No momento em que faziam sua apresentação pública, Chico e Gil tiveram seus microfones desligados, mas mesmo assim, ainda que irritados, a cantaram até o fim, acompanhados pelo público presente. Como era muito comum na época da ditadura militar, os compositores usavam uma linguagem metafórica para propagarem suas mensagens de denúncias contra as arbitrariedades do regime.

“Pai, afasta de mim esse cálice, Pai/afasta de mim esse cálice/ de vinho tinto de sangue”. Logo no início da música, eles repetem por várias vezes a expressão usada por Jesus no seu calvário no Jardim do Getsêmani, quando rogava a Deus, em oração, que afastasse dele aquele martírio. Era a forma de chamar a atenção para os verdadeiros objetivos do que queriam manifestar na canção. O apelo quase desesperado de ver finalizado o tempo de opressão a que os brasileiros estavam sendo submetidos desde março de 1964. O vinho tinto trazia o gosto de sangue.

“Como beber dessa bebida amarga/tragar a dor, engolir a labuta/mesmo calada, ainda resta o peito/silêncio na cidade não se escuta”. Não dava mais para conviver com aquela situação de forma passiva, sem reação. A dor do sofrimento não podia ser aceita resignadamente. O trabalho do dia-a-dia, a labuta rotineira, teria que ter um sentido mais objetivo de construção de um novo tempo. Ainda que os ditadores continuassem a reprimir qualquer movimento de contestação ao poder, restava “no peito” o amor próprio, a vontade de gritar que era chegada a hora da insurreição contra aquele estado de coisas. Percebia-se que já não havia mais silêncio na cidade, nas ruas, mesmo sem estardalhaços ou alaridos, a voz do povo já se fazia ouvir nas intimidades da convivência social.

“Do que me vale ser filho da santa/melhor seria ser filho da outra/outra realidade menos morta/tanta mentira, tanta força bruta”. Não valia “ser filho da santa”, no sentido de ser um discípulo do bom comportamento, da obediência servil, do cumprimento educado das regras. Era melhor ser “filho da outra”, significando ser rebelde, insubordinado, contrário aos princípios ditados pelos que detinham a força de governo. Era urgente mudar a realidade vivida. A propaganda enganosa tentando vender uma imagem diferente da crueldade que se estabelecia no regime teria que ter um basta. O povo precisava acordar. “A força bruta” não poderia mais impor tanto medo.

“Como é difícil acordar calado/se na calada da noite eu me dano/quero lançar um grito desumano/que é uma maneira de ser escutado”. A passividade diante dos acontecimentos ficava cada vez mais difícil de ser consentida, se era sabido que nos porões da ditadura, “na calada da noite”, muitos dos nossos compatriotas estavam sendo torturados, massacrados, assassinados. O grito da revolta tinha que ser ecoado para a tomada de consciência coletiva de que teríamos que reconquistar nossa liberdade e retomar o caminho da democracia.

“Esse silêncio todo me atordoa/atordoado eu permaneço atento/na arquibancada para a qualquer momento/ver emergir o monstro da lagoa”. O aparente silêncio, de certa forma, deixava espantados, como que perdidos, sem saber o caminho certo a trilhar, todos os que compreendiam a grave situação então vivenciada. Contudo, não se permitiam ficar desatentos, porque “o monstro” continuava ameaçando a qualquer instante “emergir da lagoa”. Os ditadores não recuariam facilmente e poderiam, de uma hora para outra, fazer valer o poder ditatorial que ainda tinham nas mãos, impingindo novas formas de abuso de autoridade e violência para impor as suas ordens.

“De muito gorda a porca já não anda/de muito usada à faca já não corta/como é difícil, pai, abrir a porta/essa palavra presa na garganta”. A ditadura começava a perder forças. Os ventos da liberdade já se insinuavam em nossos ambientes. A crueldade contra os que não compactuavam com os ditadores, de tanto ser praticada, já não amedrontava tanto. No entanto, a dificuldade em romper os grilhões do aprisionamento político ainda torturava a todos. Na garganta uma palavra engasgada: liberdade.

“Esse pileque homérico no mundo/de que adianta ter boa vontade/mesmo calado o peito, resta a cuca/dos bêbados do centro da cidade”. A embriaguez dominava perseguidores e perseguidos. Os primeiros, embriagados pelo poder e os outros sob o efeito entorpecedor da bebida amarga que lhes obrigaram a ingerir. Situações diferentes. Os “bêbados do centro da cidade”, se não podiam falar o que sentiam poderiam usar a “cuca” nos momentos de sobriedade para arquitetarformas de dar essência a atitudes de oposição.

“Talvez o mundo não seja pequeno/nem seja a vida um fato consumado/quero inventar o meu próprio pecado/quero morrer do meu próprio veneno”. Não se inibir diante de coisas que acreditavam ser imutáveis. Ousar no agir e no pensar. Melhor pecar por uma causa nobre do que se omitir por receio de contrariar regras. Se o veneno que a própria luta lhe impuser tomar, há de ser por um sentimento revolucionário de conquista do bem comum, que morra por ele. Não há de prevalecer o egoísmo do bem estar individual.

“Quero perder de vez tua cabeça/minha cabeça perder teu juízo/quero cheirar fumaça de óleo diesel/me embriagar até que alguém me esqueça”. Existem ocasiões em que a loucura tem sentido. É quando se enfrenta loucos maiores. Há um ditado popular que diz: para um doido, doido e meio. Quem sabe na insanidade circunstancial, não surja a luz da razão. E assim, os que nos oprimiam com suas loucuras terminem por serem abatidos pela coragem dos que cometam a insensatez de enfrentá-los.

• Essa é uma das 250 crônicas do livro “CANÇÕES QUE FALAM POR NÓS”, inspiradas em letras de músicas da MPB.
Republicada no livro UM OLHAR INTERPRETATIVO DAS CANÇÕES DE CHICO. meu próprio veneno”. Não se inibir diante de coisas que acreditavam ser imutáveis. Ousar no agir e no pensar. Melhor pecar por uma causa nobre do que se omitir por receio de contrariar regras. Se o veneno que a própria luta lhe impuser tomar, há de ser por um sentimento revolucionário de conquista do bem comum, que morra por ele. Não há de prevalecer o egoísmo do bem estar individual.

“Quero perder de vez tua cabeça/minha cabeça perder teu juízo/quero cheirar fumaça de óleo diesel/me embriagar até que alguém me esqueça”. Existem ocasiões em que a loucura tem sentido. É quando se enfrenta loucos maiores. Há um ditado popular que diz: para um doido, doido e meio. Quem sabe na insanidade circunstancial, não surja a luz da razão. E assim, os que nos oprimiam com suas loucuras terminem por serem abatidos pela coragem dos que cometam a insensatez de enfrentá-los.

• Essa é uma das 250 crônicas do livro “CANÇÕES QUE FALAM POR NÓS”, inspiradas em letras de músicas da MPB.
Republicada no livro UM OLHAR INTERPRETATIVO DAS CANÇÕES DE CHICO.

 

Fonte: Blog do repórter Iedo Ferreira

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