ARCEBISPO DE BELÉM DO PARÁ: Dom Alberto Taveira diz que o Círio de Nazaré é poderosa confissão do Deus vivo

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“A decisão de caminhar em direção ao santuário já é uma confissão de fé, o caminhar é um verdadeiro canto de esperança e a chegada é um encontro de amor. O olhar do peregrino para a imagem da Virgem de Nazaré simboliza a ternura e a proximidade de Deus e da Mãe de Deus”, escreve o arcebispo de Belém (PA) e vice-presidente do regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

No artigo “O Círio de Nazaré como agente de evangelização”, Dom Alberto faz resgate histórico e reforça a piedade popular presente no círio como “poderosa confissão do Deus vivo que age na história e um canal de transmissão da fé”. “Nossa piedade popular mariana é uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários, onde se recolhem as mais profundas vibrações de nosso coração, de nossa cultura e mais ainda de nossa fé”, afirma dom Alberto.

 

Leia o artigo do arcebispo de Belém

O CÍRIO DE NAZARÉ COMO AGENTE DE EVANGELIZAÇÃO

No ano de 1793, o governador Sousa Coutinho teve a ideia de organizar uma grande feira com produtos agrícolas e extrativistas para serem comercializados no período em que se costumava celebrar a festa (mês de agosto). Porém, em junho de 1793 este fica doente, condenado a não comparecer a festa, fez a promessa que se caso melhorasse, iria buscar a imagem, levá-la para a capela de seu palácio e depois voltaria com ela para a sítio de Nazaré. Graça alcançada, promessa cumprida. Temos então em 8 de setembro de 1793 o primeiro Círio de Nazaré.

A atual Igreja, que se seguiu a outras construídas no mesmo local daquela que o Caboclo Plácido edificou, foi construída no século XX. Em seu interior, enriquecido por belos mosaicos e vitrais, temos contada a história da Virgem Maria e da sua invocação sob o nome de Nazaré.

O termo “Círio” tem origem na palavra latina “cereus” (de cera), que significa vela grande de cera, objeto comumente usado para se pagar promessas. Em três de julho de 1793, o governador determina que no final de setembro de cada ano se organizasse festejos em honra a Nossa Senhora de Nazaré no largo de sua ermida, devendo a imagem na véspera ser levada à capela do palácio dos governadores, atual Palácio Lauro Sodré, a fim de ser transferida no dia seguinte novamente para sua ermida. Surge aí a primeira procissão do Círio de Nossa Senhora.

Após a imagem da Virgem Santíssima, é certamente a corda um nos maiores objetos de devoção dos fiéis. Sua origem remonta o ano de 1885, quando na hora da procissão, a baía do Guajará tinha transbordado, para que a berlinda (que era puxada por bois) pudesse avançar, tiveram a ideia de lhe passar uma grande corda em volta, pedindo aos fiéis que a puxassem, dessa forma a berlinda pôde vencer o atoleiro e assim constituiu-se a tradição de atrelar uma corda a berlinda.

A Berlinda é o carro mais importante, e sua função é proteger a imagem e proporcionar sua melhor visualização. Além da Berlinda, temos a presença de outros carros que foram surgindo em tempos distintos, e retratam vários episódios ligados a devoção a Virgem de Nazaré, como o milagre de Dom Fuas. Há ainda os carros que retratam aspectos da fé católica, como o da Santíssima Trindade e os Anjos, além da barca dos milagres, que recolhe os objetos em cera levados pelos devotos no cumprimento de suas promessas.

Plácido José de Souza foi conduzido pelo Espírito Santo, que o conduziu pelas mãos para nos presentear com a devoção a Nossa Senhora de Nazaré. Desejamos continuamente recuperar a mesma devoção com que Plácido aprendeu a fazer o jogo de amor, passando do Igarapé das matas da estrada do Utinga à sua tosca residência e vice-versa, até que fosse reconhecido que “o coração humilde daquele homem era o mais apropriado abrigo para a Rainha dos Céus” (Dom João Evangelista Pereira, Bispo do Pará). Os recursos para o maravilhoso templo, nossa Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, vieram com o amadurecimento dos tempos, mas nossa Mãe e Rainha continua passeando, passando pelas vias da fé, abertas nos sulcos escancarados do coração de nosso povo.

A devoção mariana acompanhou passo a passo a peregrinação da fé vivida pela Igreja. De fato, aquela que chamamos Estrela da Evangelização é a referência maior na escuta amorosa de Deus e no assentimento a seu plano de salvação. Com Maria, a Igreja continua a subir pelas montanhas de Judá ou caminhar pelos muitos caminhos do mundo para amar e servir aos mais pobres. A Belém do nascimento de Jesus se repete não só na Belém do Pará, mas onde quer que a Igreja esteja presente, com pessoas semelhantes a Maria e José.

Diante do mistério do sofrimento, ali está Maria, firme diante de Simeão ou de pé ao lado da Cruz de seu Filho. Em Caná ou no Cenáculo, discípula e modelo da oração, ali está Maria, conduzindo-nos sempre de novo à casa de Nazaré, símbolo da intimidade profunda na qual o tu a tu com Deus há de repetir, pois as respostas a Deus são exigências do mistério com o qual fomos criados, sedentos dele e de sua Palavra.

arcebispo de belem do para dom alberto taveira diz que o cirio de nazare e poderosa confissao do deus vivo 300x248 - ARCEBISPO DE BELÉM DO PARÁ: Dom Alberto Taveira diz que o Círio de Nazaré é poderosa confissão do Deus vivoSão muitos os “Plácidos” de lá para cá. Quero contemplá-los nos olhares gritantes que encontro nos ambientes mais complexos da sociedade. Plácido para mim são os detentos que vejo nos presídios da Grande Belém. Plácidos são as pessoas cujos passos trôpegos nas aventuras da vida querem acertar, mas carregam, como enfermidades desafiadoras, seus limites tantas vezes inexplicáveis, que têm o nome de vícios! Plácidos são os justos ou pecadores na multicolorida sociedade paraense.

Plácidas são as crianças e os jovens, iniciados no verdadeiro mistério que é ser devoto da Virgem de Nazaré, já que ninguém resiste ao Círio! Plácido é aquela pessoa que participa do Círio, ainda confusa, atraída misteriosamente pelo turbilhão do povo que crê, mas lá dentro tem mil perguntas sem respostas. E ela não consegue ficar em casa, porque não dá para ser paraense sem Círio! São igarapés que parecem mais um fio d’água teimoso que conduz ao Mar que é Deus!

Plácidos de hoje são os cerca de vinte e cinco mil voluntários, que ajudam a carregar a Santa e seu cortejo, para que nenhum pedacinho de rua ou de coração fique sem Círio! Plácidas são as varandas e sacadas, arquibancadas e praças, com o burburinho das grandes festas, e a nossa é a maior! Como o povo hebreu no deserto, muitas vezes somos barulhentos, quem sabe desorganizados, mas nossa oração é feita de passos e cansaço, sangue nas mãos e nos pés, cordas misteriosas que nos valem o contato com o Sagrado.

 

Fonte: CNBB

Foto: Fernando Sette

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