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João Pessoa 23 de agosto de 2017   05:00

Memória: PB lembra os 87 anos da morte de João Pessoa neste dia 26; ele enfrentou coronéis e foi assassinado por motivações pessoais

Postado em: 26 jul 2017  | 2:27:42

Adelson Barbosa dos Santos

 

A Paraíba lembra hoje, 26 de julho, os 87 anos do assassinato do presidente (governador) do Estado, João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque. Corajoso e destemido, ao assumir o Governo da Paraíba, no dia  22 de outubro de 1928, o sobrinho do ex-presidente Epitácio Pessoa com certeza tinha em mente as consequências do enfrentamento que faria ao coronelismo. Também sabia que desgostaria o tio, ao provocar o desmantelamento da oligarquia instalada por Epitácio, que mandou na política da Paraíba com mão de ferro durante 15 anos.

No entanto, certamente, João Pessoa não imaginava que seria vítima da tragédia que o transformou em um heroi homenageado em um hino de autoria do cantor e compositor Francisco Morais Alves, o Chico Alves, considerado o “Rei da Voz”, que fez sucesso nacional em função do assassinato do presidente paraibano.

“Lá do Norte, um heroi altaneiro, que da Pátria o amor conquistou, foi um vulto farol que ligeiro, acendeu e depois se apagou. João Pessoa, João Pessoa, bravo filho do Sertão, toda a Pátria espera um dia, a sua ressurreição…”, diz a letra composta e gravada pelo “Rei da Voz” poucos dias após o assassinato.

A tragédia aconteceu no dia 26 de julho de 1930, numa confeitaria (Glória), no Centro de Recife, a Capital pernambucana. O então presidente da Paraíba tinha 52 anos e era uma liderança nacional em quem se projetava uma longa e exitosa carreira política. No ano de sua morte, ele havia disputado a vice-presidência da República na chapa da Aliança Liberal encabeçada pelo gaúcho Getúlio Vargas.

A repercussão da morte foi imediata. Houve comoção nacional. Multidões prestaram homenagens (de corpo presente) a João Pessoa na Paraíba e no Rio de Janeiro, então Capital da República. Integrantes  da Aliança Liberal se aproveitaram do episódio para faturar politicamente. No Rio, onde foi enterrado, o cortejo percorreu as principais ruas e avenidas.

Os restos mortais de João Pessoa só retornaram à Paraíba em 1996, durante o governo de José Maranhão, hoje senador da República. Estão em um mausoléo localizado no terreno onde funcionou a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, entre o Palácio da Redenção e a antiga Faculdade de Direito, na Praça que leva o nome dele.

A chapa formada por Getúlio Vargas e João Pessoa foi vitoriosa na Paraíba e no Rio Grande do Sul, mas derrotada no Brasil nas eleições de 1º de março de 1930. Pouco tempo depois, 26 de julho, João Pessoa foi assassinado pelo advogado paraibano João Dantas. O motivo? Os historiadores dizem que um caso amoroso entre Dantas e a escritora Anayde Beiriz fora exposto publicamente, inclusive nas páginas do jornal a União, por determinação de João Pessoa, o que teria inflamado a ira do advogado, cuja vingança saiu de um revólver que disparado contra o presidente.

Inimigo pessoal de João Pessoa, João Dantas teria tido seu escritório de advocacia (na Capital paraibana) arrombado por aliados do presidente. Do escritório, teriam sumido cartas amorosas (de cunho erótico, normal entre casais que se amam) escritas por Anayde Beiriz para João Dantas. As mesmas, segundo historiadores, teriam sido publicadas no Jornal A União.

É certo que os coronéis combatidos por João Pessoa não tiveram participação no crime que abalou o Brasil, mas que eles gostaram, disso ninguém tem dúvida, principalmente o coronel José Pereira, que foi amigo de Epitácio Pessoa e aliado de João Pessoa, com quem rompeu depois que o governo passou a colocar rédeas na gestão publica, até então sob o poder de coronéis como ele.

Historiadores paraibanos e gaúchos acreditam que o assassinato de João Pessoa por João Dantas motivou um movimento armado dos aliados de Vargas, o provocou a revolução de 1930 que levou o gaúcho ao poder, numa ditadura de longos 15 anos.

A revolução teve seu ápice com um golpe militar no dia 24 de outubro de 1930, quando o presidente Washington Luís foi deposto. Com a deposição, os militares aliados de Getúlio impediram a posse do presidente eleito Júlio Prestes. Estava terminando a República Velha e sendo iniciada uma nova fase na história do Brasil. Uma junta militar assumiu por alguns dias e deu posse a Getúlio Vargas na chefia do Governo Provisório no dia 3 de novembro.

Revolta de Princesa

Segundo o historiador José Octávio de Arruda Melo, governo de João Pessoa centralizou a administração estadual, arrebatando funções que estavam nas mãos dos coronéis, o que motivou, por exemplo, a revolta do coronel José Pereira, em Princesa Isabel, que colocou seu “exército” particular para enfrentar a força policial do Estado. O coronel chegou a decretar princesa Isabel território independente da Paraíba, embora subordinado à União Federal.

Dentre as decisões tomadas por João Pessoa, que provocaram a ira dos coronéis, estão o controle da arrecadação fiscal, da segurança pública, das obras, do crédito, das administrações municipais e da aplicação da Justiça. Isso tudo estava sob o comando dos coronéis que não gostaram nada da atitude de João Pessoa. “Os coronéis controlavam tudo e tudo foi arrebatado por João Pessoa para o controle do Estado”, sustenta José Octávio.

De acordo com o escritor, João Pessoa montou seu governo ignorando os coronéis . “Era uma exigência do processo histórico. O mundo estava mudando e não fazia mais sentido a existência do poder feudal dos coronéis nos Estados, frisa o historiador.

Nos dias que sucederam  à morte de João Pessoa, houve intensa agitação popular (e política) na Capital, que, de Cidade da Parahyba, se transformou em João Pessoa (conforme lei aprovada pela Assembleia Legislativa) em homenagem ao presidenta assassinado. Ligada ao líder assassinado também está a bandeira do Estado, nas cores preta e vermelha.

A cor preta faz alusão ao luto pela morte do presidente. O vermelho representa a cor Aliança Liberal. Na bandeira, a palavra Nego (do verbo negar) remete ao telegrama enviado em 1929 por João Pessoa ao presidente Júlio Prestes, negando apoio à candidatura de Washington Luís a presidente da República em pleito realizado naquele trágico ano de 1930, que mudou a história da Paraíba e do Brasil.

 

Adelson Barbosa dos Santos é jornalista formado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

Fotos foram capturadas na Internet