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João Pessoa 17 de outubro de 2017   15:24

“Revolução” de 1817 faz 200 anos hoje; conheça um pouco; é história de um pedaço do Brasil que ficou independente por dois meses

Movimento objetivava a República, teve início em Pernambuco e se espelhou pela Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará

Postado em: 5 mar 2017  | 17:41:17

Adelson Barbosa dos Santos

 

 

1817Quatro Estados do Nordeste brasileiro celebram nesta segunda-feira os 200 anos da “revolução” de 1817, movimento político que eclodiu em Pernambuco, no dia 6 de março daquele ano, e se espalhou como um rastilho de pólvora pelas então capitanias da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

O movimento resistiu por pouco mais de dois meses, mas foi duramente reprimido por tropas enviadas da Bahia, por ordem da Coroa Portuguesa instalada no Rio de Janeiro.

A ideia central dos patriotas da “revolução” era proclamar a República. Concretizando o ideal, eles aboliriam o Império que cobrava elevados impostos na região.

Os revoltosos de 1817 também não aceitavam que os cargos públicos da então Capital do Império, a cidade do Rio de Janeiro, permanecessem nas mãos dos portugueses.

Naquela época, durante dois meses e meio, segundo o historiador José Octávio de Arruda Melo, as quatro Capitanias do Norte (ainda não havia a denominação região Nordeste) atingiram o objetivo ao se declararem independentes de Portugal, e, consequentemente do resto do Brasil.

Os nortistas pernambucanos, paraibanos, potiguares e cearenses não aceitaram continuar bancando o luxo da Corte, instalada no Rio de Janeiro em 1808, depois que Dom João VI fugiu de Portugal com a família real e mais 15 mil apaniguados temendo a ira de Napoleão Bonaparte.

O imperador francês ocupou quase toda a Europa, mas não conseguiu enfrentar a Inglaterra e foi trapaceado pelo soberano português que encontrou refúgio seguro no Brasil, com apoio dos ingleses.

Somente cinco anos após a “revolução”- no dia 7 de setembro de 1822- o Brasil declarava-se independente de Portugal, por iniciativa do filho mais velho de Dom João VI, Dom Pedro I.

“A revolução de 1817 foi um importante movimento liderado por Pernambuco, que colocou o Nordeste em condição de independência, antes do Brasil como um todo.

As quatro capitanias foram independentes por dois meses. Enfrentaram o poder central, resistiram e foram violentamente reprimidos”, disse José Octávio de Arruda Melo.

O historiador lembrou que, como punição, Pernambuco (líder do movimento), que fazia divisa com as capitanias da Paraíba, Ceará, Piauí, Bahia, Minas Gerais e Goiás, perdeu grande parte do seu território.

Doutora em História, professora Serioja Rodrigues destaca diário de sargento

No livro “A Paraíba no Século XIX: Sociedade e Culturas Políticas”, publicado pela Editora da Universidade Federal da Paraíba em 2014, a professora e historiadora Serioja Rodrigues Cordeiro Mariano analisa especificidades da “revolução” de 1817 na Paraíba a partir do diário do sargento Francisco Inácio do Valle.

O diário foi publicado em 1912 (95 anos depois do movimento político pela independência das quatro capitanias do Norte), pela revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP).

Serioja não fala em revolução, mas em insurreição. Doutora em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ela afirma no livro que o diário é um documento “rico em informações e descreve o movimento desde a eclosão, em março, até o término, em maio, com um olhar voltado para as práticas cotidianas dos militares”.

De acordo com a professora Serioja, o documento é um instrumento que deve ser entendido dentro do contexto histórico em que foi escrito, “para recordar, lembrar e até denunciar os participantes da revolução”.

Segundo Serioja, o diário foi usado como um  “espaço legítimo para denunciar uma desordem e relatar a verdade, ou seja, os insucessos da contra revolução”.

A professora do Curso de História da UFPB afirma que o discurso do sargento é revestido de uma “veracidade” legitimada pelo lugar social que Francisco Inácio do Valle ocupava.

“Um discurso que tem como base uma realidade concreta, enquanto testemunha ocular dos acontecimentos de 1817”, frisa a professora. Ela narra que o sargento morava na Capital da Paraíba e ocupava cargo de status e poder na sociedade dos anos 1800. O relato sobre a revolução, segundo Serioja, tem início no dia 7 de março e o militar mostra como, nesse dia, vieram fugidos de Pernambuco “europeos” que não queriam participar do movimento contra o rei com o objetivo de “instituir uma República Nacional Brazileira”. O diário diz que o momento era de“desordem” em Recife, “pois estavam decapitando todos os europeos habitantes”.

Cidade invadida por 3 mil homens

De acordo com Serioja, no diário do sargento, a Paraíba é apresentada aderindo ao movimento de insurreição, assumindo a liderança uma grande parte da elite local.  Segundo o capítulo IV, insatisfeito com o rumo dos acontecimentos, o sargento recebeu ordens de prisão na sala do Governo, juntamente com outros militares: o capitão João Soares Neiva e o secretário Antonio Manuel da Silva Coelho.

No diário o sargento narra as estratégias utilizadas pelos rebeldes para terem mais homens nas tropas contra o governo português: promessa de alforria para escravos, aumento do soldo, doações de patentes…

O sargento apresenta personagens do movimento. Para ele, alguns são vilões e outros são herois. Ele critica o movimento, mas faz elogios a alguns de seus integrantes, como o tenente Peregrino de Carvalho, “o mais valente dos insurgentes, o jovem heroi da liberdade” . Mas outros líderes, segundo Serioja, aparecem no diário como “traidores” , “brutos”, “furiosos” , “malditos chefes revolucionários” .

O sargento relata, segundo a professora, o que considera uma cena importante que teria sido a entrada da tropa realista na cidade da Parahyba: cerca de 3 mil homens, dentre eles os índios das vilas de Alhandra, Conde e Pilar, todos com arcos e flechas, carregando a bandeira com as insígnias reais.

“Zomba (no diário) da cena em que as mulheres dos patriotas abriram suas janelas e levantaram a bandeira real. Uma cena considerada patética porque, em momentos anteriores, essas mulheres hastearam a bandeira da revolução”, afirma Serioja.

E acrescenta que o sargento ainda “ridicularizou o fato do advogado Augusto Xavier de Carvalho sair montado a cavalo pelas ruas da cidade, com um crucifixo na não, pedindo para que as tropas realistas não matassem seu filho, Peregrino de Carvalho, que ainda resistia no Comando das Forças Armadas dos Patriotas” .

Patriota Peregrino de Carvalho foi punido com enforcamento em Recife

“Após se entregar, o tenente Peregrino de Carvalho seguiu para o convento de São Bento e, junto com sua tropa, teria dado vivas ao rei”, conta Serioja. Os apelos do pai e as vivas ao rei não adiantaram. Ele foi enforcado em Recife.

O sargento, em seu diário, elege, segundo a professora, os culpados pela desordem na Paraíba. Chama a atenção para os “pedreiros livres”, uma alusão à Maçonaria.

Por fim, segundo a doutora em História, o grande final da narrativa do diário é formado por uma portaria de 8 de maio em que o governo realista reconhece a “grandeza” dos serviços prestados pelo sargento e o nomeia Sargento Mor da Linha e Ajudante de Ordens, por “consideração e merecimento, “zelo e fidelidade”.

“Um militar que, mesmo sendo perseguido, nunca abandonou a “causa real”, um herói que lutou até o fim para resguardar a legitimidade do poder real e foi reconhecido por seus superiores que o concederam um cargo tão honrado no Governo”, frisa Serioja.

 

A foto foi feita pelo repórter fotográfico Assuero Lima, no Salão Nobre do Palácio da Redenção, a sede do Governo da Paraíba.

 

O quatro encomendado por Camilo de Holanda, governador entre 1916 e 1920, mostra o advogado Augusto Xavier de Carvalho pedindo ao filho, o patriota (revolucionário) José Peregrino de Carvalho, que se renda.

 

Correio da Paraíba